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O que é a Adenovirose canina?

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O que é a adenovirose canina?

Adenovirose Canina: Guia Completo sobre CAV-1 e CAV-2

A adenovirose canina é uma doença infecciosa grave causada por vírus da família Adenoviridae. No contexto veterinário, ela se manifesta principalmente através de dois tipos distintos de vírus que, embora pertençam à mesma família, atacam sistemas diferentes do organismo do cão e resultam em quadros clínicos completamente diversos.

O Adenovírus Canino Tipo 1 (CAV-1) é o agente causador da Hepatite Infecciosa Canina. Este vírus tem predileção por células hepáticas (fígado), células endoteliais (vasos sanguíneos) e renais. É uma doença sistêmica que pode levar à morte rápida, especialmente em filhotes não vacinados. Já o Adenovírus Canino Tipo 2 (CAV-2) é um dos principais agentes da Tosse dos Canis (Traqueobronquite Infecciosa Canina), afetando o trato respiratório superior.

Entender a diferença entre esses dois agentes é crucial, pois enquanto o CAV-2 costuma causar uma doença respiratória autolimitante (embora incômoda e altamente contagiosa), o CAV-1 provoca uma enfermidade multisistêmica potencialmente fatal. Ambos os vírus são altamente resistentes no ambiente, podendo sobreviver por meses fora do hospedeiro, o que facilita a disseminação em locais como parques, canis e abrigos.

Quais animais podem ser afetados?

A adenovirose é primariamente uma doença de canídeos. Abaixo, detalhamos o grau de risco e as especificidades para diferentes grupos:

Espécie / Grupo Grau de Risco Idade mais afetada Observações Clínicas
Cães Domésticos (Canis lupus familiaris) Alto Filhotes (< 1 ano) e Idosos Filhotes não vacinados têm a maior taxa de mortalidade para o CAV-1. Cães braquicefálicos podem sofrer mais com o CAV-2 respiratório.
Canídeos Silvestres (Lobos, Raposas) Alto Todas as idades Reservatórios naturais da doença na natureza. Raposas podem apresentar quadros neurológicos associados ao CAV-1.
Ursídeos (Ursos) Médio Variável Embora raro no Brasil, ursos são suscetíveis ao CAV-1, desenvolvendo encefalite e hepatite.
Gatos (Felinos) Nulo para CAV-1/2 Gatos não contraem o adenovírus canino, mas possuem seus próprios adenovírus específicos que não afetam cães.

Tipos e classificações da doença

A classificação clínica da adenovirose depende estritamente de qual sorotipo viral está envolvido na infecção. A distinção é fundamental para o prognóstico:

1. Hepatite Infecciosa Canina (Causada pelo CAV-1)

Esta é a forma mais perigosa. O vírus entra pelo nariz ou boca e se aloja nas amígdalas, espalhando-se para a corrente sanguínea (viremia). Ele ataca o fígado e as células que revestem os vasos sanguíneos, podendo causar hemorragias graves. Uma sequela clássica, que ocorre na fase de recuperação (cerca de 20% dos casos), é o “olho azul” (edema de córnea), causado pela deposição de complexos imunes no olho.

2. Traqueobronquite Infecciosa ou Tosse dos Canis (Causada pelo CAV-2)

O CAV-2 limita-se, na maioria das vezes, ao trato respiratório. Ele causa inflamação nos brônquios e bronquíolos. Raramente evolui para pneumonia, a menos que haja contaminação bacteriana secundária (como por Bordetella bronchiseptica). É importante notar que a vacina contra a Hepatite (CAV-1) foi substituída em muitos protocolos pela vacina com CAV-2 vivo modificado, pois o CAV-2 oferece proteção cruzada contra o CAV-1 sem causar o efeito colateral do “olho azul”.

Causas e fatores de risco

A causa direta é a infecção viral, mas diversos fatores ambientais e de manejo potencializam a disseminação da adenovirose.

  • Agentes Causadores: Adenovírus Canino Tipo 1 e Tipo 2 (DNA vírus não envelopados).
  • Transmissão Direta: Contato focinho a focinho, lambidas, ou inalação de aerossóis (gotículas de tosse e espirro) de cães infectados.
  • Transmissão Indireta (Fômites): O vírus é extremamente resistente. Tigelas de água compartilhadas, brinquedos, roupas de tutores, calçados e pisos de canis mal higienizados podem albergar o vírus por meses.
  • Ambientes de Risco:
    • Parques de cães (“Parcões”).
    • Creches e hotéis para cães com baixa exigência vacinal.
    • Abrigos e ONGs com alta densidade populacional.
    • Exposições de cães.
  • Fatores do Hospedeiro: A ausência de colostro materno (anticorpos) em recém-nascidos e a falha na vacinação (esquema incompleto) são os maiores determinantes para a gravidade da doença.

Sintomas mais comuns

Os sintomas variam drasticamente entre os dois tipos de vírus.

Sintomas do CAV-1 (Hepatite Infecciosa)

A doença pode evoluir de forma superaguda (morte súbita em horas) a crônica.

  • Sinais Iniciais: Febre alta (>40°C), apatia extrema, anorexia (falta de apetite), sede excessiva.
  • Sinais Gastrointestinais: Vômito e diarreia (às vezes com sangue).
  • Sinais Específicos: Dor abdominal à palpação (região do fígado), mucosas pálidas ou ictéricas (amareladas), petéquias (pequenos pontos de sangue na pele e gengiva).
  • Sinal Tardio (Fase de Recuperação): Edema de córnea, deixando o olho com uma aparência azulada e opaca (“Blue Eye”).

Sintomas do CAV-2 (Respiratório)

Geralmente mais brandos, mas altamente contagiosos.

  • Sinais Principais: Tosse seca e alta (semelhante a um “grasnar de ganso” ou engasgo), que piora com exercício ou excitação.
  • Outros Sinais: Corrimento nasal seroso (transparente) que pode virar mucopurulento (verde/amarelo) se houver bactérias oportunistas; febre leve; inapetência.

Como é feito o diagnóstico veterinário?

O diagnóstico não deve ser feito apenas “no olho”, pois os sintomas podem ser confundidos com cinomose, parvovirose ou leptospirose. O médico veterinário utilizará uma combinação de:

  1. Anamnese e Exame Físico: Avaliação do histórico de vacinação e palpação abdominal para verificar aumento do fígado (hepatomegalia) e sensibilidade.
  2. Hemograma Completo:
    • No CAV-1, é comum observar leucopenia (queda de glóbulos brancos) na fase inicial, seguida de leucocitose. Trombocitopenia (plaquetas baixas) explica os sangramentos.
  3. Bioquímico Sérico: Elevação drástica das enzimas hepáticas (ALT, AST, FA) no caso da hepatite infecciosa.
  4. Testes Específicos (Padrão Ouro):
    • PCR (Reação em Cadeia da Polimerase): Identifica o DNA do vírus no sangue, urina ou secreções nasais. Diferencia CAV-1 de CAV-2.
    • Sorologia (ELISA): Detecta anticorpos, mas deve ser interpretada com cautela em animais vacinados.
  5. Imagem: O ultrassom abdominal é vital para avaliar o estado do fígado e rins em casos de CAV-1.

Tratamentos disponíveis

Não existem medicamentos antivirais específicos que matem o adenovírus. O tratamento é de suporte, focado em manter o animal vivo enquanto seu próprio sistema imunológico combate a infecção.

Tratamento para CAV-1 (Hepatite)

Requer internação imediata e intensiva.

  • Fluidoterapia: Reposição agressiva de líquidos para combater a desidratação e o choque.
  • Transfusão de Sangue/Plasma: Necessária em casos de coagulopatia grave ou perda excessiva de sangue.
  • Protetores Hepáticos: Medicamentos como silimarina e SAMe para auxiliar a regeneração do fígado.
  • Controle de Sintomas: Antieméticos (para vômito), analgésicos potentes para dor abdominal.
  • Antibióticos: Não matam o vírus, mas são essenciais para prevenir a sepse bacteriana secundária em um organismo debilitado.

Tratamento para CAV-2 (Respiratório)

Muitas vezes pode ser tratado em casa, com isolamento.

  • Antitussígenos: Para aliviar a tosse seca e permitir que o cão descanse (somente sob prescrição).
  • Inalação/Nebulização: Ajuda a umidificar as vias aéreas.
  • Antibióticos: Prescritos apenas se houver suspeita de pneumonia bacteriana secundária.

O que NÃO fazer: Nunca medique seu animal com analgésicos humanos (como paracetamol ou ibuprofeno), que são tóxicos e podem piorar a lesão hepática causada pelo vírus.

A doença tem cura?

Sim, a adenovirose tem cura, mas o prognóstico varia.

Para o CAV-2 (Respiratório), o prognóstico é excelente. A maioria dos cães se recupera totalmente em 2 a 3 semanas, sem sequelas. A tosse pode persistir por algum tempo devido à irritação traqueal.

Para o CAV-1 (Hepatite), o prognóstico é reservado. Em casos superagudos em filhotes, a mortalidade é alta. Cães que sobrevivem à fase aguda geralmente se recuperam, mas podem desenvolver insuficiência hepática crônica ou problemas renais (nefrite intersticial) a longo prazo. O “olho azul” geralmente regride espontaneamente, mas em casos severos pode levar ao glaucoma ou cegueira se não tratado.

Prevenção: como evitar a doença

A prevenção é, sem dúvida, a melhor estratégia. O vírus é onipresente, e o isolamento total é impossível.

  • Vacinação Ética: As vacinas polivalentes (V8, V10, V12) contêm proteção contra o Adenovírus (geralmente usam a cepa CAV-2 que protege contra ambos os tipos). O protocolo deve começar entre 6 e 8 semanas de vida, com reforços a cada 3-4 semanas até as 16 semanas ou conforme diretriz veterinária. O reforço anual ou trienal (conforme titulação de anticorpos) é essencial.
  • Quarentena: Não leve filhotes sem o ciclo vacinal completo para a rua, pet shops ou contato com outros cães.
  • Desinfecção: O adenovírus é resistente a muitos desinfetantes comuns. Soluções de hipoclorito de sódio (água sanitária diluída) ou compostos à base de amônia quaternária são eficazes para limpar ambientes contaminados.
  • Isolamento de Doentes: Cães diagnosticados devem ficar isolados de outros animais. Note que cães recuperados de Hepatite Infecciosa (CAV-1) podem continuar eliminando o vírus na urina por 6 a 9 meses após a cura clínica.

A doença pode passar para humanos ou outros animais?

A adenovirose canina NÃO é uma zoonose. Isso significa que ela não é transmitida para seres humanos. Você pode cuidar do seu cão doente sem risco de contrair hepatite ou gripe dele.

No entanto, o risco de transmissão para outros cães é altíssimo. Se você tem múltiplos cães e um adoece, o isolamento deve ser rigoroso, e as roupas e sapatos utilizados no manejo do animal doente não devem entrar em contato com os animais sadios.

Impactos da doença no bem-estar animal

A adenovirose impõe um sofrimento significativo. No caso da hepatite, a dor abdominal é intensa, comparável a uma “cólica” aguda constante, somada ao mal-estar geral, náusea e fraqueza. O animal sente-se vulnerável e estressado.

Na forma respiratória, a tosse constante impede o sono reparador, gera irritação na garganta e estresse respiratório. Além disso, o isolamento necessário priva o animal de sua rotina social, podendo gerar ansiedade. O manejo da dor e o enriquecimento ambiental passivo durante a recuperação são fundamentais para minimizar esses impactos.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. A vacina V10 protege contra a adenovirose?
Sim, tanto a V8 quanto a V10 (e superiores) incluem proteção contra o adenovírus. A maioria utiliza a cepa do Tipo 2, que imuniza o cão contra a gripe e também contra a hepatite viral, sem os riscos da vacina antiga do Tipo 1.
2. O que é o “olho azul” na adenovirose?
É um edema (inchaço) da córnea causado por uma reação do sistema imunológico que ocorre geralmente na fase de recuperação da Hepatite Infecciosa Canina. O olho fica opaco e azulado. Pode ser doloroso e requer avaliação veterinária.
3. Quanto tempo o vírus sobrevive no ambiente?
O adenovírus é muito resistente. Em temperatura ambiente, pode sobreviver por semanas ou até meses em superfícies, tigelas e tecidos, se não houver desinfecção adequada.
4. Um cão adulto vacinado pode pegar adenovirose?
É raro, mas possível se houver falha vacinal (vacina mal conservada, aplicada incorretamente) ou se o sistema imune do cão estiver muito debilitado (imunossupressão). Porém, os sintomas em vacinados tendem a ser muito mais leves.
5. A adenovirose canina pega em gatos?
Não. Gatos não pegam o adenovírus canino, assim como cães não pegam a rinotraqueíte felina. São vírus espécie-específicos.
6. O tratamento caseiro com chá de boldo ajuda na hepatite canina?
Não. A hepatite viral canina é uma doença grave e sistêmica. Chás e remédios caseiros não têm potência para combater a viremia ou a inflamação hepática severa e podem atrasar o tratamento veterinário vital.
7. Por quanto tempo um cão recuperado transmite o vírus?
Cães recuperados da forma respiratória (CAV-2) transmitem por cerca de 2 semanas. Já os recuperados da hepatite (CAV-1) podem eliminar o vírus na urina por 6 a 9 meses, sendo uma fonte silenciosa de contágio.
8. A água sanitária mata o adenovírus?
Sim. O hipoclorito de sódio (água sanitária) é eficaz na inativação do vírus no ambiente. Deve-se limpar o local removendo matéria orgânica (fezes/urina) primeiro e depois aplicar a solução desinfetante.

Conclusão técnica e educativa

A adenovirose canina é um exemplo clássico da importância da medicina veterinária preventiva. Enquanto a forma respiratória (CAV-2) é comum e geralmente manejável, a forma hepática (CAV-1) é uma ameaça letal que, felizmente, tornou-se menos frequente graças à vacinação massiva. Para o tutor, a mensagem é clara: o custo de uma vacina é ínfimo comparado ao risco de vida e aos custos de uma internação em UTI para tratar a doença. Mantenha a carteirinha em dia e, ao menor sinal de apatia ou tosse, procure um médico veterinário. O diagnóstico precoce é o divisor de águas entre a recuperação e o óbito.


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